Brasil lucra com a exportação de carros blindados para o Iraque

Todd Benson
Em São Paulo

Há alguns anos, a produção de carros blindados era um dos negócios que mais cresciam no Brasil. À medida que a quantidade de crimes urbanos e de seqüestros disparava, dezenas de vendedores de veículos blindados prosperaram por todo o país, e as vendas aumentaram quase sete vezes em apenas cinco anos.

Mas embora os crimes violentos continuem a assolar as maiores cidades brasileiras, as vendas de veículos blindados vêm declinando no Brasil nos últimos dois anos – em parte devido a uma dura crise econômica, e também porque a maioria dos brasileiros ricos que sentiam necessidade de carro à prova de balas já adquiriu um automóvel blindado.

Portanto, para manter os negócios aquecidos, os fabricantes desse tipo de veículo se voltaram para o mercado de exportação. E talvez nenhuma região seja tão atraente para a venda de carros blindados do que o Oriente Médio – especialmente o Iraque, onde ataques mortíferos contra tropas norte-americanas e funcionários de companhias ocidentais se tornaram corriqueiros.

“Há explosões diárias no Iraque e muita gente está sendo morta. Por isso, não é de se admirar que a demanda por carros blindados seja tão alta”, diz Franco Giaffone, presidente da Abrablin, uma associação comercial que representa mais de 30 fabricantes e vendedores brasileiros de carros blindados.

“E devido ao fato de várias empresas de carros blindados nos Estados Unidos já estarem no limite da sua capacidade de produção, muita gente está se voltando para o Brasil para obter o produto desejado”, acrescenta Giaffone, cuja companhia, a G5 Blindagens Especiais, está negociando com governos da Europa Oriental que procuram carros blindados para as suas representações diplomáticas no Iraque.

Após terem passado décadas concentradas quase que exclusivamente no grande mercado interno, as companhias brasileiras estão trazendo dólares extremamente necessários ao país e promovendo a recuperação da economia por meio da exportação de todo tipo de produtos, de máquinas de lavar a aviões comerciais. Somente em maio, as exportações totalizaram um recorde de US$ 7,94 bilhões, ajudando o país a registrar um superávit comercial mensal de mais de US$ 3 bilhões pela primeira vez em sua história.

Com uma das piores divisões de renda do planeta, o Brasil se transformou em um grande fabricante de carros blindados na segunda metade dos anos 90, quando a elite do Brasil procurava se proteger da criminalidade crescente. As vendas dispararam de 388 carros por ano em 1995 para 4.681 em 2001, fazendo do Brasil o maior fabricante de veículos à prova de balas, à frente de outros países assolados pela criminalidade, como Colômbia e México.

No entanto, em 2003 as vendas despencaram em um terço, ficando em apenas 3.123 carros, levando alguns dos fabricantes de menor porte à falência. A indústria se recuperou em 2004, apostando que as vendas aumentariam em cerca de 5% neste ano, à medida que a economia do país recuperasse o fôlego. Foi quando as encomendas do Iraque começaram a surgir.

Atualmente os fabricantes de carros blindados esperam reajustar para cima as suas expectativas de vendas, embora advirtam que ainda é muito cedo para afirmar qual será a dimensão do crescimento dos negócios.

“De repente as pessoas acordaram para o fato de que o Oriente Médio pode ser um novo mercado promissor para nós”, diz Eduardo Rodrigues, diretor industrial do Grupo Inbrafiltro, uma das maiores companhias brasileiras de carros blindados.

A Imbrafiltro, que também produz portas à prova de balas para cabines de aviões da Empresa Brasileira de Aeronáutica, a fabricante brasileira de aviões, também conhecida como Embraer, é uma das poucas companhias brasileiras do setor de blindagem que recebeu encomendas do Iraque para a entrega de veículos.

Rodrigues disse que no mês passado, em uma exposição comercial em Miami, foi abordado por representantes de meia dúzia de multinacionais norte-americanas – em sua maioria grandes companhias do setor de energia e de construção -, todas interessadas em adquirir veículos para uso no Iraque.

Agora a Inbrafiltro está fechando negócios para as suas duas primeiras encomendas para o Oriente Médio, relativas a um total de 60 veículos utilitários esportivos, ao preço de cerca de US$ 100 mil a unidade.

“Estamos falando de encomendas que poderão representar milhões de dólares”, explica Marcelo Carneiro, diretor da Central Brasileira de Blindados e Segurança, uma companhia de blindagem de veículos de São Paulo que está firmando contratos com uma multinacional norte-americana e duas européias que operam no Oriente Médio.

Uma outra companhia que está se beneficiando da demanda crescente por veículos blindados no Iraque é a International Armoring Corporation do Brasil, a subsidiária brasileira da High Protection Company, de Atlanta. A High Protection, que já faz blindagem em veículos Humvee para o Exército dos Estados Unidos na sua fábrica em Fort Lauderdale, na Flórida, recebeu recentemente três grandes encomendas para o Oriente Médio. Ela espera atender a todas elas com produtos da sua fábrica em Itaquaquecetuba, nas imediações de São Paulo.

As encomendas incluem 200 automóveis para o governo saudita, 130 para o jordaniano, e até 50 veículos utilitários esportivos fortemente blindados para a Parsons Corporation, a empresa gigante do setor de engenharia e construção com sede em Pasadena, Califórnia, que recebeu um contrato no valor de US$ 1,8 bilhão para obras de infraestrutura no Iraque no início deste ano.

“Vamos enviar os veículos dos Estados Unidos, para o Brasil e, depois, do Brasil diretamente para o Oriente Médio”, afirmou, de Atlanta, em uma entrevista por telefone, Mauricio Junot de Maria, diretor-executivo da High Protection.

Na verdade, nem todas as empresas brasileiras de blindagem assinarão tão cedo negócios multimilionários para o envio de veículos ao Iraque. A maioria das companhias locais visa o mercado doméstico, o que significa que blindam carros para proteger os motoristas da violência indiscriminada de rua nos cruzamentos e das balas perdidas – uma ocorrência comum nas grandes estradas que levam ao Rio de Janeiro, uma cidade repleta de extensas favelas controladas por quadrilhas de traficantes fortemente armados.

No entanto, um veículo blindado no Iraque precisa suportar tiros de armas automáticas de grosso calibre, como o fuzil automático Kalashnikov AK-47, e a detonação de artefatos explosivos. E isso pode custar até o dobro do serviço básico de blindagem, já que é necessário o emprego de uma tecnologia que é dominada apenas pelas maiores companhias do ramo.

“Aqui, se um carro não estiver bem blindado, ainda dá para escapar de um incidente, embora nem sempre”, explica Boris Kruijssen, diretor regional para a América Latina do Control Risks Group, uma empresa de consultoria de segurança que está aconselhando companhias norte-americanas que operam no Iraque sobre onde comprar carros blindados no Brasil.

“Mas, no Iraque, se o veículo não estiver bem blindado, os ocupantes vão morrer”, continua ele. “É por isso que os nossos clientes nos estão pedindo que testemos os carros aqui”.

Fonte: The New York Times / Portal UOL